Friday, December 01, 2006


EPIDEMIA
Aids 'custa' 1 milhão de empregos ao ano, diz OIT

Local de trabalho deve ser o principal ponto de entrada para a prevenção e acesso a tratamento
O severo avanço do HIV/AIDS está reduzindo fortemente o crescimento econômico e do emprego nos países mais afetados pela epidemia, atrapalhando seus esforços para reduzir a pobreza, criar novos empregos, especialmente para a juventude, e combater o trabalho infantil, diz um novo relatório lançado nesta quinta-feira(30) pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A publicação “HIV/AIDS e trabalho: estimativas globais, impacto nas crianças e nos jovens, e respostas ao problema - 2006” indica que cerca 36,3 milhões de pessoas em idade de trabalho vivem hoje com HIV/AIDS - a vasta maioria na África subsaariana.Além disso, o relatório aponta que a epidemia está causando uma redução no crescimento do emprego que resulta em 1 milhão a menos de empregos por ano nos países mais atingidos, comparado com o que poderia ser criado na ausência do HIV/Aids.
O relatório apresenta um modelo pelo qual é capturado o impacto da epidemia de HIV/Aids no crescimento econômico e do emprego em 43 países com mais de 1% de prevalência de HIV/Aids, nos casos em que havia dados disponíveis. Isso tornou possível se chegar à estimativa do custo anual para a economia global em termos de encurtamento de crescimento no mercado de trabalho.
O relatório conclui que:
- Entre as pessoas em idade de trabalho, além dos 24,6 milhões de participantes da força de trabalho vivendo com HIV/Aids, mais 11,7 milhões de pessoas que estão envolvidas em alguma forma de atividade produtiva, frequentemente mulheres em casa, agora estão vivendo com o vírus.
- Quarenta e três países muito afetados pelo HIV/Aids perderam em média 0,5 pontos percentuais ao ano em sua taxa de crescimento econômico entre 1992 e 2004 por causa da epidemia, e como resultado tiveram uma redução de 0,3 pontos percentuais no crescimento do emprego. Entre eles, 31 países na África subsaariana perderam 0,7 pontos percentuais de sua taxa média anual de crescimento econômico com perda de 0,5 pontos no crescimento do emprego. Isso produziu uma redução no emprego global de 1,3 milhões de novos empregos a cada ano, onde 1,1 milhão foram perdidos anualmente somente na África subsaariana.
- O impacto da epidemia foi particularmente severo para crianças e jovens cujas vidas, esperanças e futuro foram diretamente ou indiretamente afetados pelo HIV/Aids. Em todo o mundo, perto de 2,3 milhões de crianças vivem com Aids e há uma estimativa de 15 milhões de órfãos da Aids. Quando as crianças nos países mais afetados alcançam a idade de trabalho enfrentam uma severa redução de oportunidades legítimas de emprego.
- O desemprego para as pessoas jovens consideradas em idade de trabalho é 2 a 3 vezes maior do que dos adultos. Isso coloca os jovens em risco no que se refere à pobreza mas o relatório também destaca o risco aumentado de exposição ao HIV de grande número de jovens desempregados com falta de recursos. Consequentemente, os jovens somam metade de todas as novas infecções. Cerca de 5 a 6 mil pessoas entre 15 e 24 anos adquirem Aids a cada dia.
- Em 2005, mais de 3 milhões de participantes da força de trabalho em todo o mundo estavam parcial ou completamente impedidos de trabalhar por doenças decorrentes da Aids, e ¾ deles viviam na África subsaariana.
Globalmente 41% dos participantes da força de trabalho que vivem com HIV são mulheres, e na África subsaariana essa proporção é ainda maior, chegando a 43%.
Crianças
O foco do relatório em crianças e adolescentes reflete o forte impacto que a epidemia está tendo no futuro da força de trabalho mundial. Freqüentemente a epidemia empurra as crianças para o trabalho muito cedo por que seus parentes estão doentes ou morreram e uma fonte de renda é necessária.
O trabalho infantil coloca a criança em risco, tira delas o acesso a educação e pode levá-las a um trabalho que as coloque em maior vulnerabilidade de adquirir o vírus. Isso ocorre, apesar de um conjunto de instrumentos legais baseados nos direitos terem sido amplamente ratificados para eliminar as piores formas de trabalho infantil se vigorosamente aplicados, e para limitar o acesso ao trabalho para crianças abaixo da idade e mantê-las na educação compulsória.
Um estudo de diagnóstico rápido feito pela OIT na Zâmbia em 2002 estimou que o HIV/Aids aumentou a força de trabalho infantil entre 23 e 30%. Uma pesquisa em Uganda, em 2004, descobriu que mais de 95% das crianças que viviam em domicílios afetados pela Aids estavam engajadas em alguma forma de trabalho. E 16% das crianças trabalhadoras - na maioria meninas - trabalhavam dia e noite.
Além do que, as garotas mais do que os rapazes ficavam em casa para cuidar de parentes doentes ou crianças menores, abandonando assim a escola.O novo estudo da OIT também descobriu que as garotas enfrentam maiores riscos do que os meninos de serem abusadas sexualmente e adquirirem HIV no local de trabalho, particularmente por meio da prostituição e outras explorações sexuais.
A falta de oportunidade para o trabalho decente pode compelir jovens mulheres e homens para o trabalho em condições precárias e não reguladas. Eles estão em risco crescente de contrair o HIV quando essas condições os expõem ao vírus. Os estudos frequentemente mostram que a maioria dos homens e mulheres que usam a indústria do sexo para sobreviver começam o trabalho sexual em sua adolescência ou em torno dos 20 anos.
Esses fatores interagem com o resultado que indica, de acordo com os dados mais recentes, que os jovens respondem por metade das novas infecções. E que a maioria dos jovens que vivem com HIV não sabem que carregam o vírus, especialmente nos locais mais pobres."As perdas por mortalidade da força de trabalho, doenças e falta de acesso ao tratamento antiretroviral (ARVs) estão desafiando a capacidade dos países mais afetados de sair da pobreza", diz o relatório, adicionando que o futuro da força de trabalho é colocado em perigo pelo forte impacto da epidemia nas crianças, já que pode forçá-las ao trabalho infantil e depois reduzir as chances de encontrar trabalho produtivo quando atingem a idade legal de trabalho.
Destacando que houve progresso recente, "desafortunadamente atrasado", do acesso ao tratamento ARV, o relatório também diz que há necessidade "forçada" de novas medidas para aumentar o acesso ao ARV e urgência para que o local de trabalho seja designado como "principal porta de acesso" para tal.Sem aumentar o acesso aos ARVs, espera-se que as perdas acumuladas com a mortalidade para a força de trabalho global continuem a aumentar como resultado da epidemia de HIV, dos cerca de 28 milhões estimados em 2005 para 45 milhões projetados para 2010, mais de 64 milhões para 2015, e cerca de 86 milhões antecipados para 2020. Entretanto o relatório demonstra que o aumento no acesso aos ARVs pode ter um impacto significante nas perdas do mercado de trabalho. Mostra que das 17,3 milhões de perdas esperadas entre 2005 e 2010 em nível global, pelo menos 14% seriam revertidas com o acesso global ao ARVs."Muito pode ser ganho com a expansão do acesso aos ARVs, mesmo quando e onde as taxas de continuação tendem a estar baixas no final do período", afirma o relatório (taxas de continuação refletem a proporção de pessoas tratadas que ficam em tratamento de um ano para o outro). "A projeção de reverter entre 1/5 e ¼ do potencial de novas perdas para a força de trabalho pode servir como um poderoso incentivo para focar o local de trabalho como porta de entrada para o acesso universal para ARVs".A OIT está comprometida com estratégias de longo prazo para a eliminação do trabalho infantil, a preparação para a entrada no mercado de trabalho para os jovens em idade apropriada, e a elaboração de políticas nacionais para redução do desemprego juvenil. A princípio, a remoção das crianças do trabalho infantil requer o estímulo a formas alternativas de encorajar a criação de trabalho, aumentar a produtividade no trabalho e aumento da renda dos jovens, assim como oferecer assistência alternativa a atual geração de crianças, permitindo a eles fortalecer suas competências para o trabalho a longo prazo.O jovem desempregado não pode substituir o trabalhador infantil em muitos casos, mas o potencial para reorientar a demanda afastando o trabalho da criança e o aproximando dos jovens é uma prioridade que clama por atenção e merece ser examinada.
Metodologia
A análise sumarizada no relatório foi realizada com dados de 60 países de todo o mundo que são fortemente afetados pela epidemia de HIV. Incluem-se 56 países onde a prevalência de HIV em pessoas com idades de 15 a 49 anos foi de 1% ou mais, e quatro países (Brasil, China,Índia e Estados Unidos) onde a prevalência é menor, mas devido a grandeza numérica de sua população, possivelmente 1 milhão ou mais de pessoas são HIV-positivo.
Dos 60 países, dados de 43 estavam disponíveis para estimar perdas no crescimento econômico e do emprego, do restante dos países, 13 eram países pequenos para os quais não haviam dados disponíveis ou confiáveis. Dos quatro grandes países com baixa prevalência de HIV (Brazil, China, Índia e Estados Unidos), o impacto em suas economias foi muito pequeno para ser medido.
Dos 50 países, os dados de 54 países estavam disponíveis para estimar os ganhos de produtividade da força de trablaho em meses e o valor em dólar atribuível aos ARVs; do restante, todos os seis eram países pequenos para os quais não se dispunha de dados.Assim, as descobertas de ambas as análises descrevem a situação global, mas se baseiam em estimativas conservadoras
.Pessoas em idade de trabalho são todas as pessoas entre 15 e 64 anos na maioria das análises. Os participantes da força de trabalho são pessoas entre 15 e 64 anos que estão em trabalho remunerado, autônomo ou desempregado em busca de trabalho.
Na África do Sul
Cerca de 950 pessoas contaminadas pelo vírus da aids morreram por dia em 2006, na África do Sul, e pelo menos 1,4 mil foram infectadas diariamente - em um total de 530 mil novos casos, de acordo com um relatório divulgado pela Sociedade Sul-Africana de Estatística, e pelo Conselho Médico de Pesquisa.
O levantamento, realizado a cada dois anos e utilizado para analisar o impacto da doença, aponta também que 5,4 milhões dos 48 milhões de habitantes da África do Sul foram infectados pelo HIV, somente no segundo semestre de 2006.
De acordo com o relatório, é possível que a Índia possua, hoje, um índice maior de infectados do que aquele registrado na África do Sul. O documento afirma que a expectativa de vida dos portadores da doença também caiu de 63 anos, em 1990, para 51, neste ano.
"O Impacto Demográfico do HIV/aids na África do Sul: Indicadores de 2006" afirmou também que menores de 15 anos têm 56% de chances de morrer antes dos 60 anos. Há 16 anos, esse índice era de apenas 29%.
Em relação ao futuro, o novo relatório prevê que os altos índices de incidência da infecção devem persistir na África do Sul, pelo menos, na próxima década. Por fim, o levantamento afirma que aproximadamente 230 mil infectados receberam tratamento no segundo semestre deste ano. Por outro lado, 540 mil pacientes não foram submetidos a qualquer tipo de terapia.Fontes:
(Envolverde/OIT e O.M.S)

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