Tuesday, December 12, 2006

Discriminação e desigualdades de gênero através das regiões
Relatório divulgado pelo UNICEF indica que apenas 20% acreditam que a sociedade brasileira trata igualmente os dois sexos

Freqüentemente, atitudes, crenças e práticas que excluem a mulher estão profundamente enraizadas, e, em muitos casos, estreitamente associadas a normas culturais, sociais e religiosas. Entretanto, levantamentos, pesquisas de opinião e estudos de caso fornecem uma boa indicação da prevalência de discriminação de gênero em muitos países.
Uma pesquisa do Gallup realizada em cinco países da América Latina – Argentina, Brasil, Colômbia, El Salvador e México – constatou que 50% dos entrevistados acreditavam que a sociedade favorece os homens em detrimento das mulheres. No Brasil, apenas 20% dos entrevistados, homens e mulheres, acreditam que a sociedade trata igualmente ambos os sexos, e mais de 50% dos entrevistados nesse país e na vizinha Argentina consideram que mulheres e homens não gozam de igualdade em relação a oportunidades de trabalho. Embora esses resultados sejam extraídos de uma amostra pequena, podem ser indicativos de um reconhecimento mais amplo da discriminação de gênero na sociedade.
Examinando atitudes sociais sobre questões específicas, como acesso à educação e oportunidades de geração de renda para mulheres, o estudo revela de forma ainda mais evidente a extensão da discriminação de gênero e sua comparação através dos países. A Pesquisa Mundial sobre Valores identifica um número alarmantemente alto de homens que acreditam que níveis mais altos de educação são mais importantes para um menino do que para uma menina. E como mostra este relatório, são eles que freqüentemente detêm o poder na alocação de recursos da família para serviços vitais como educação e cuidados de saúde .
Em Bangladesh, cerca de dois terços dos homens entrevistados declararam que a educação universitária de meninos deve ter prioridade sobre a de meninas – uma opinião que encontra eco em cerca de um terço dos homens entrevistados no Irã, no México e em Uganda, por exemplo. Em alguns países, as opiniões dos homens sobre essa questão particular foram menos discriminatórias, sendo que apenas um em cada dez homens entrevistados na China e menos de um em cada 13 nos Estados Unidos tinham a mesma opinião.
Essas opiniões sobre educação estão amplamente refletidas nas atitudes em relação ao trabalho da mulher e à sua participação na política. Em sete países pesquisados no Oriente Médio e no Norte da África, mais de 80% dos homens acreditam que, em casos de escassez de oferta, os homens têm mais direito ao trabalho do que as mulheres, e que são melhores líderes políticos do que as mulheres. Em outras regiões, a proporção de homens com essas opiniões é menor, mas ainda significativa.
O levantamento revelou que as opiniões das mulheres também podem ser tão ou mais discriminatórias do que as dos homens com relação a seu próprio gênero. Um número surpreendentemente grande de mulheres entrevistadas concordou ou concordou veementemente com a afirmação de que os homens são melhores líderes políticos do que as mulheres – inclusive mais de 50% de entrevistadas em Bangladesh, China, Irã e Uganda, mais de um terço na Albânia e no México, e uma em cada cinco nos Estados Unidos. Essas porcentagens destacam o fato de que atitudes discriminatórias contra mulheres e meninas não são simplesmente características de homens, mas também refletem normas e percepções que podem ser compartilhadas pela sociedade como um todo. Pesquisas mostraram que, quando as mulheres colocam essas normas de lado e quando a pressão para cumpri-las é diminuída, suas opções e seus valores são muito diferentes.
Embora essas pesquisas de opinião e esses levantamentos ofereçam uma perspectiva de opiniões de sociedades, não chegam a refletir a verdadeira extensão da discriminação de gênero. São necessários indicadores quantificáveis para compor um quadro mais claro das desigualdades e parcialidades produzidas pela discriminação contra mulheres e meninas. No entanto, uma vez que muitos levantamentos e recenseamentos nacionais e internacionais freqüentemente não são desagregados por sexo, esses indicadores são relativamente raros. Mesmo assim, os dados disponíveis indicam uma conclusão evidente: as desigualdades de gênero permanecem teimosamente entrincheiradas em todas as regiões do mundo.
Uma tentativa para captar a discriminação de gênero em um único indicador é a Medida de Fortalecimento de Gênero do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (MFG), que avalia a igualdade de gênero em tomadas de decisão em áreas básicas de participação econômica e política. A medida inclui renda estimada (um determinante crucial da influência de um membro da família sobre as decisões familiares), a porcentagem de mulheres que trabalham em posições de nível sênior e a porcentagem de mulheres parlamentares. Embora haja amplas variações através das regiões, o fortalecimento de gênero medido pelo MFG é mais baixo em países das regiões do Oriente Médio e Norte da África e da Ásia Meridional, e mais alto nos países industrializados.
Ainda que os países mais pobres tendam a ter níveis mais baixos de fortalecimento de gênero, não há evidências claras de que as desigualdades de gênero diminuam automaticamente em níveis de renda mais elevados. Do mesmo modo, baixa renda não deve constituir uma barreira para níveis mais altos de fortalecimento de gênero.

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