Apartheid
Levante de Soweto: 30 anos
Revolta estudantil que deu início à mobilização contra o apartheid, o regime de segregação racial na África do Sul completa 30 anos
A África do Sul começou sua caminhada pela libertação graças a milhares de alunos de primeiro grau que , indignados e cansados de segregação racial começaram, há 30 anos, uma revolta sangrenta em busca de um país mais digno .
Milhares saíram das salas de aula pelas ruas de Soweto, no sudoeste de Johannesburgo, num desafio ao apartheid cuja data está gravada na história do país - 16 de junho de 1976. Três décadas depois , o país comemorou o levante como o ponto de virada em que os negros tomaram a iniciativa no gueto de Soweto.
Cerimônias homenagearam os estudantes como heróis que assentaram os alicerces da liberdade ao iniciarem uma luta que culminou em eleições democráticas em 1994.O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, seguido por uma multidão, realizou uma marcha que partiu da escola Morris Isaacson, lugar que hoje é um marco da revolta, para terminar no memorial Hector Peterson, nome dado em homenagem ao adolescente de 12 anos que foi a primeira vítima do levante e cuja foto - sendo carregado por um companheiro - deu a volta ao mundo e desencadeou uma mobilização mundial sem precedentes contra o regime racista sul-africano.
Furiosos, os estudantes sairam às ruas f por serem obrigados a aprender o africânder (a língua falada pelos colonizadores brancos). A polícia abriu fogo, matando pelo menos 23 jovens .
Os distúrbios sangrentos nos meses seguintes radicalizaram uma geração e anunciaram a derrocada do apartheid. Centenas de pessoas foram mortas, dados não oficiais confirmam cerca de 500.
Mas a pompa das celebrações esconde uma nova luta que está dividindo antigos colegas de classe de um modo que poucos imaginaram naqueles anos quando eles estavam unidos contra cães, balas e bombas de gás lacrimogêneo.Alguns saíram do tumulto ricos exaltando uma nova nação em que os negros têm a oportunidade de progredir. Outros saíram mais pobres e desiludidos, membros de uma subclasse que se sente abandonada e sem esperanças.
O desemprego, oficialmente em 26,7%, está, na realidade, mais perto de 40%, uma das taxas mais elevadas do mundo.A África do Sul é hoje uma das sociedades mais desiguais do mundo. Uma classe média negra cada vez mais confiante alimenta um boom de consumo enquanto milhões permanecem num lodaçal de desemprego e condições de vida estarrecedoras.
Dois lados
Dois antigos militantes, Oupa Moloto e Robert Zondo, ilustram a divisão. Ambos atuam no memorial Hector Peterson. Moloto, de 50 anos, um empresário bem-sucedido e membro do partido governante, Congresso Nacional Africano (CNA), tem um escritório onde ajuda a coordenar eventos comemorativos. Em 1976, ele foi um dos líderes estudantis e entrou no movimento guerrilheiro clandestino do CNA, mas foi apanhado e preso por dois anos. Depois de solto, retomou as atividades clandestinas enquanto trabalhava como motorista de táxi - um degrau da escada econômica que o deixou bem posicionado quando Nelson Mandela foi eleito presidente em 1994. Sua experiência reflete a de uma nova classe média negra que está crescendo 50% a cada ano, segundo uma pesquisa da Universidade de Cidade do Cabo.
No frio de inverno do lado de fora do memorial, vendendo bugigangas, está Zondo, de 38 anos, outro ex-militante estudantil. Ele completou a educação secundária mas a agitação política o impediu de obter uma graduação em administração. Pai solteiro, sua renda é suplementada por um auxílio mensal de 15 libras (cerca de U$ 28) do governo. "Meu filho poderá se beneficiar da liberdade que conquistamos, mas eu nã. Hoje não comi. Os visitantes deste lugar acham que os negros agora são livres - eles não compreendem que a luta econômica continua."
"Hoje eu não comi. As pessoas acham que os negros da África são livres...", Zondo - ex-revolucionário do Movimento estudantil que culminou com o fim do Apartheid