Wednesday, June 21, 2006



Padre colombiano é mantido preso pelo governo brasileiro por se manter do lado dos jovens e dos pobres

"Eu, Francisco Antonio Cadena Collazos (conhecido como Olivério Medina), residente no Brasil, identificado com o registro nacional de estrangeiro Y-279733-5. Morador da rua São Paulo 2662, Medianeira - Paraná.Sendo sacerdote entre 1975 e 1983, me dediquei à pastoral em favor dos jovens e dos camponeses. Fazia parte de uma equipe sacerdotal na Diocese de Neiva, Estado do Huila.O trabalho pastoral consistia na promoção integral das comunidades, visando a melhora da educação, a saúde, alimentação e do desenvolvimento econômico das regiões camponesas. Tal trabalho causou preocupação por parte dos latifundiários e autoridades do governo, pois transparecia a péssima situação das comunidades e ficava evidente o abandono em que eram mantidas, ano após ano, pelo Estado. Por este motivo vários sacerdotes sofreram perseguição.No meu caso, um capitão do exército mandou-me, através de um amigo, um recado dizendo que me restavam três opções para poder continuar vivendo, pois o comando da Brigada já havia decidido me matar. As opções eram: o exílio (deixar o país), ficar calado e interromper o trabalho pastoral, e no último caso, o ingresso nas FARC. Uma vez informado Dom Rafael Sarmiento, meu Bispo, ligou para o general da Brigada e solicitou que a ordem dada não fosse cumprida.Entendendo que não se tratava de um caso isolado, mas de um caso de terrorismo de Estado, hoje elevado à concepção de Estado e convertido em forma normal de governar. Decidi continuar do lado do povo e para isto fui para as montanhas, já que delas pode-se sair, mas do túmulo não. Na Colômbia, essa é uma forma de defesa da vida num primeiro momento, e também de lutar pela paz com justiça social.Foi grande a minha surpresa quando descobri que a guerrilha tinha em sua linha política, desde seus inícios, a proposta de construir a solução pacífica dos problemas do povo colombiano. Antes da agressão militar do governo contra os camponeses de Marquetalia, eles enviaram cartas para a ONU, Cruz Vermelha Internacional, o parlamento colombiano, para a igreja, os intelectuais franceses, entre outros, solicitando que ajudassem a impedir a guerra contra eles e suas famílias. Nessa oportunidade os franceses Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, junto com outros amigos, enviaram carta para o governo solicitando que não fizessem uso da força contra os camponeses. A igreja católica, também interessada na paz, nomeou o Padre Camilo Torres para viajar até Marquetalia e falar com os camponeses, mas o exército não permitiu sua viagem. Por isto todas as propostas em favor da solução política do conflito não têm encontrado, no governo, ouvido receptivo nem a vontade política, só guerra.Tenho contribuido dese 1983 nos processos de paz ocorridos até hoje.1- Nos diálogos entre o governo do Presidente Belisario Betancourth e as FARC ( 1982-1986 ).Foram assinados os acordos de cessar fogo, Trégua e Paz e, o documento conhecido como Acordos de Uribe, município onde ocorreram os diálogos. Destes acordos surge o movimento político UNIÓN PATRIÓTICA, em cuja conformação contribui em várias regiões do país, especialmente nos Estados de Antioquia, Meta, Chocó, assim como nos Estados da Costa Atlântica. Este movimento político tinha como objetivo consolidar o processo de paz e abrir a porta da democracia para a Colômbia. O Mundo sabe que foi banido, massacrado pelo Estado por meio de terrorismo de Estado e o paramilitarismo ligado ao narcotráfico.2- No governo do Presidente Virgilio Barco( 1986 - 1990), sei de quantos esforços foram realizados para aclimatar a paz, o cessar fogo e a trégua. Infelizmente nestes anos o povo colombiano perdeu milhares de sua lideranças. Foi mais forte a razão da força que a força da razão.3- No governo de César Gaviria( 1990 - 1994 ), as FARC acreditavam, ainda, nos diálogos. Todos sabemos que este presidente reascendeu o fogo da guerra atacando as áreas onde tinham lugar as conversações. Porém foram abertas as possibilidades de dialogar em Cravo Norte( Colômbia), Caracas( Venezuela) e Tiascala( México). Contribuí nas comunicações e nos contato com a imprensa ( meios de comunicação em geral).4- Nos diálogos com o governo de Andrés Pastrana ( 1998 - 2002 ), ajudei na criação das condições para a abertura dos diálogos e no atendimento dos jornalistas, tanto nacionais como do estrangeiro e, convidados especiais. Participei nas reuniões com os moradores dos 42.000 Km² que foram desmilitarizados para aclimatar a convivência pacífica. Não posso deixar de comentar que nessa área do tamanho da Suíça, eram assassinadas pelas Forças do Governo 367 pessoas a cada ano. Durante três anos que a guerrilha administrou essa área, se apresentaram duas mortes violentas, só a violência do governo é pavorosa. Eu clamo pela paz e a convivência pacífica.5- Nos três últimos anos (2003 - 2005 ), em resposta ao clamor nacional e internacional em favor do Intercâmbio Humanitário, ou Troca de Prisioneiros, concentramos esforços na procura de apoio internacional. Se o Intercâmbio acontecer pode se converter num espaço propício para reanimar diálogos.Vários governos têm interesse em colaborar para que esse fato seja uma realidade. Aparece em destaque o governo da França. EUA também está interessado, aparentemente.Continuo convencido de que posso seguir apostando meu esforço pela busca da solução política do conflito para que a paz seja uma realidade na Colômbia.A guerra não resolve os problemas; os agrava."

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