Wednesday, June 28, 2006


ARTIGO
"A resposta do "assassino"

:: Aos 12 anos, Y. foi preso ao pular um muro. Depois foi detido no Maracanã, por brincar com um revólver de espoleta. Tempos depois levou um tiro na perna ::

"Se você pensa que entrar no coro é apanhar na bunda. Não é...". Assim transcrevo um verso cantado semana passada por um coro de crianças da Escola Municipal Pró-Morar Barigüi, em Curitiba. O cantar vinha acompanhado de um balançar dos pequenos corpos e de gestos como o de um leve toque nas nádegas simultâneo ao dizer a palavra "bunda".
Assisti à apresentação deste coro, com cerca de 40 crianças, na abertura do 8º congresso do Sindicato dos Servidores do Magistério Municipal de Curitiba (Sismmac). São crianças pequenas, de 9 a 12 anos de idade, que, felizes, entoavam a música.
Em alguns momentos, uma ou outra desafinava ou ficava um pouco desatenta —ou mesmo ria. Quando isso ocorria, ao invés da bronca, a professora, uma voluntária, fazia um pequeno gesto, muito mais de afeto e compreensão do que de bronca ou repressão.
Fiquei emocionado e atento a todos os detalhes. Uma menina pequena, de idade e de altura, com seus olhinhos claros, quase não conseguia cantar, tamanha era a quantidade de bocejos que tomou conta dela. E o bocejo contamina. De ficar observando-a, comecei eu a bocejar também.
Comecei a pensar qual era a razão de tanto bocejar. E uma das que imaginei foi a de que, no dia anterior, a seleção brasileira jogou e foi vitoriosa contra o time japonês. Imaginei que talvez, pela festa da vitória, alguém na sua casa ou na vizihança fez tanta farra que atrapalhou o sono da pequena artista.
Não pensei isso a troco de nada, mas pelo que vi após o jogo. Alguns saem pelas ruas, já semi-embriagados. Beberam durante o jogo e, na rua, passam a beber mais.
Apesar dos bocejos, a apresentação chegou ao final. E eu fique sem saber a razão do sofrimento da pequena artista.
Durante a apresentação, ressurgiu em mim a história contada por Ivo Meirelles, que já relatei em outro artigo recente, a respeito de como a música pode salvar a vida de crianças e adolescentes.
O coro também deve estar livrando muitas dessas crianças da violência da droga, das gangues, dos pequenos assaltos e da prostituição. Além disso, pode estar construindo uma profissão ou simplesmente transmitindo o conhecimento da boa música popular brasileira.
Também pensei em Rodrigo Netto, guitarrista da banda Detonautas, que dias atrás foi assassinado por um menor de 16 anos no Rio de Janeiro. Será que este menor, como os meninos do Meirelles ou os do Coro do Pró Morar Barigüi, caso tivesse a oportunidade de ser músico, teria assassinado o guitarrista?
O "assassino" de Rodrigo foi preso e entrevistado pelo jornal "O Globo" no último dia 22/6. "Você atirou no músico?", pergunta o jornalista. Sem titubear, o rapaz responde: "Atirei mesmo. O cara do Detonautas arrancou com o carro e jogou em cima de mim".
A entrevista prossegue. Rodrigo percebeu o assalto e tentou fugir? Y., o "assassino", responde: "Claro. Ele teve a opção de dar ré. Se ele tivesse me machucado, não ia se arrepender e nem ia sair nos jornais".
Se tivesse que dizer alguma coisa aos parentes de Rodrigo Netto, o que diria? A resposta do "assassino" foi dada em duas perguntas: "E se ele me matasse? Vocês iam ter o que falar para a minha mãe?"
Coloco a palavra "assassino" entre aspas para perguntar: quem matou antes? Este menino (Y.) matou primeiro, ou ele já tinha sido assassinado na sua infância quando todas as oportunidades, como uma boa educação ou inclusive a perspectiva de ser músico, lhe foram negadas?
Aos 12 anos, Y. foi preso ao pular um muro. Depois foi detido no Maracanã, por brincar com um revólver de espoleta. Tempos depois levou um tiro na perna.
Em alguma dessas prisões de Y., o Estado socorreu suas necessidades? Perguntou como vivia e de quê precisava? Ou simplesmente o ignorou ou o considerou como alguém já "perdido"?
Perguntado por que se decidiu pela vida do crime, o jovem responde que queria curtir a adolescência. Caso tivesse tido a oportunidade da música, seria hoje um "assassino" ou estaria curtindo com aplausos a sua juventude? "

*Dr. Rosinha, médico pediatra e sanitarista, deputado federal (PT-PR)
e secretário-geral da Comissão do Mercosul.

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