GENOCÍDIO
Camboja se prepara para o julgamento do Khmer Vermelho
Jürgen KremPol Pot e os seus asseclas cometeram assassinato em massa contra o seu próprio povo. Agora, um tribunal internacional deverá julgar o regime - naquilo que certas pessoas dizem ser o primeiro ajuste de contas legal com o comunismo. Será que a justiça poderá ser feita, 30 anos depois?
As memórias assombram Nhem Sal, 50, mesmo durante o sono. Ele sente dores nos tornozelos e pulsos, como se o seu carcereiro adolescente do Khmer Vermelho ainda o estivesse acorrentando à cama de metal no terceiro andar do Bloco A, na infame prisão Tuol Sleng, onde eram praticadas torturas.O campo era denominado "S-21" - e ele era o centro do terror no regime de Pol Pot. Mais de 30 anos se passaram desde então.Nhem Sal alimenta a família com o arroz que ele próprio cultiva. Ele tem cerca de 1,70 metro de altura, traz uma mecha rala de cabelo sobre a testa, e as suas mãos são cobertas de calos.
A sua palhoça fica na província de Takeo, cerca de 60 quilômetros ao sul da capital cambojana, Phnom Penh. Durante um quarto de século, promotores analisaram os documentos utilizados nas acusações, e agora eles querem tomar os depoimentos das primeiras testemunhas.Os crimes cometidos foram monstruosos. Quase a metade da população cambojana de sete milhões de habitantes morreu durante a bárbara tentativa de Pol Pot de transformar o seu país na suprema sociedade comunista, afirma o primeiro-ministro Hun Sen.Especialistas estrangeiros acreditam que um número mais provável de pessoas mortas seja 1,7 milhão. Os indivíduos que visitaram Nhem Sal dizem que apenas sete entre os cerca de 20 mil prisioneiros da S-21 sobreviveram ao campo de torturas. Cinco ainda estão vivos, e Nehm Sal é um deles.Fervor nacionalistaNa primavera de 1970, todos os agricultores da vila de Nhem Sal se aproximaram do único rádio disponível e ouviram a voz do príncipe Sihanouk falando a eles da distante Pequim. Sihanouk disse que "o vassalo dos Estados Unidosk, o general Lon Nol", tramara um golpe contra ele, e suplicou aos jovens que libertassem a pátria.
O Camboja se emaranhou na Guerra do Vietnã. Bombardeiros B-52 norte-americanos despejaram 500 mil toneladas de explosivos no país no final da década de 1960, a fim de destruir as linhas de comunicação com os comunistas vietnamitas que passavam por território cambojano. O número de bombas foi maior do que o lançado contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.
Após ouvirem o príncipe falar no rádio, Nhem Sal e os seus amigos seguiram para a selva e se juntaram ao Khmer Vermelho. Cinco anos mais tarde, eles haviam vencido, tendo conquistado a capital e deslocado a população para o interior, onde ela deveria vivenciar o "verdadeiro comunismo". Aquele foi o início de uma campanha brutal de genocídio contra o próprio povo cambojano.
Cinco meses depois, soldados crianças - que não diferiam de Nhem Sal e dos seus colegas - chegaram ao campo deles e os acusaram de serem "espiões a serviço dos imperialistas norte-americanos". Após um breve interrogatório, eles fuzilaram o supervisor de Nhem Sal. O corpo do supervisor foi usado como "fertilizante para os campos de arroz", conforme explicaram cinicamente os executores.Nhem Sal foi jogado na carroceria de um caminhão e levado para a prisão Tuol Sleng. Durante o dia ele era torturado. Ele passava as noites acorrentado à sua cama. Ao contrário da maioria dos outros prisioneiros do campo, ele foi libertado subitamente após um ano de prisão, para combater novamente junto às fileiras do Khmer Vermelho em escaramuças de fronteira com o Vietnã.
A matança finalmente terminou em dezembro de 1978. Soldados vietnamitas - liderados pelo cambojano Hun Sen, um renegado do Khmer Vermelho - libertaram o país da orgia de sangue instituída por Pol Pot.Agora, 28 anos depois, Nhem Sal retorna pela primeira vez a Tuol Sleng, no momento em que se prepara para ser testemunha perante o tribunal.Letras brancas anunciam à entrada do pavilhão: "Museu do Genocídio".
No assoalho há longas fileiras de murais com fotos. Todos os prisioneiros foram fotografados pelos guardas de Pol Pot quando chegaram a esse gulag tropical, e os seus dados pessoais foram anotados.Nhem Sal passou algum tempo examinando as paredes repletas de fotos, procurando em vão pela sua própria imagem. De repente as suas memórias ficaram insuportáveis e ele correu para fora.
Por que o Khmer Vermelho agiu com tamanha barbaridade? Quem deu a ordem para que se cometessem assassinatos em massa contra o povo? O pesquisador francês tentou responder a essas perguntas. "Indiretamente, a catástrofe teve início conosco, os franceses", afirma o diretor do Centro de Estudos do Khmer Vermelho em Seim Reap, que fica ao lado do famoso templo Angkor Wat, que também abrigou o Khmer Vermelho."Sem Pol Pot, nós nos teríamos transformado em uma província norte-americana"Quando o exército colonial francês cruzou a fronteira e ingressou na Indochina em meados do século 19, o Camboja era dominado pela Tailândia e pelo Vietnã.
Em 1863, os governantes coloniais transformaram a região em um protetorado. Os franceses permitiram pela primeira vez a independência do Camboja em 1953, sob o governo do rei Sihanouk. Mas ao final da década de 1960 o país se envolveu com a Guerra do Vietnã. Sob a liderança de Pol Pot, houve a emergência de guerrilheiros de esquerda - o Khmer Vermelho - que lutou contra o governo e finalmente chegou ao poder em 1975.De acordo com Peycam, os comunistas combinaram a sua ideologia com uma xenofobia extremada. Quando mais gente eles matavam, mais sentiam que se livrariam de toda influência estrangeira. Um nacionalismo assassino tomou conta do país.
Nhem En, 46, membro da equipe da S-21, mora próximo a Siem Reap, na região fronteiriça de Anlong Veng. Ele tirou a maioria das fotos que atualmente são exibidas no Museu do Genocídio. Ele também entrou para o Khmer Vermelho quando criança. Foi uma decisão da qual ele nunca se arrependeu. "Os B-52 destroçaram o nosso país", conta Nhem En.Ele foi treinado como fotógrafo em 1976 na China, e depois enviado para trabalhar na prisão Tuol Seng. "Eu ouvia as pessoas gritando, mas fiz o que tinha que fazer". Em outras palavras: para sobreviver, preocupe-se primeiramente consigo próprio. "Todos os dias eles traziam novos prisioneiros", conta ele. "Tínhamos que tomar medidas drásticas".
Quando Pol Pot fugiu em 1979, perseguido pelas tropas vietnamitas, Nhem En o acompanhou e se tornou o seu fotógrafo particular. "Ele não era um homem ruim", diz Nhem En referindo-se ao ditador. "Ele sempre tomou conta dos seus camaradas. Sem ele, teríamos nos transformado em uma província norte-americana".Quando é confrontado com perguntas sobre as várias sepulturas coletivas e os milhões de mortos, ele oferece uma versão alternativa para o que se passou. Nhem En alega que dois terços das vítimas morreram de desnutrição ou doenças: "Uma conseqüência da guerra que foi imposta sobre nós".
Nhem En quer criar um museu de Pol Pot. Ele vasculha uma caixa de metal cheia de fotos antigas e encontra o que procura: O "Irmão Número Um" em marcha pela selva; Pol Pot rodeado pelos seus comandantes, como se fosse um avô bonzinho. Às vezes Nhem leva um visitante até a sepultura do assassino de massas, localizada a cinco minutos de carro da sua casa. Ele cobra US$ 100 por esse serviço. E ele também vende fotos do corpo de Pol Pot, que morreu em 1998, perto de Anlong Veng.Quando lhe perguntam como se sente a respeito do tribunal, ele responde: "Se o governo desejar me colocar perante o tribunal, irei com satisfação. Não tenho medo". Mas ele não acredita que a coisa chegue a esse ponto. Atualmente ele trabalha para o governo de Hu Sen como vice-chefe regional. E, em Phnom Penh, a calma é mais importante do que o ajuste de contas com o passado.
O primeiro ajuste de contas legal com o comunismo?
O tribunal dará início ao seu trabalho neste início de ano. O julgamento provavelmente demorará anos, e ele deverá se limitar a abordar as violações dos direitos humanos cometidas durante o período da ditadura de Pol Pot, entre 17 de abril de 1975 e 6 de janeiro de 1979.A maior parte dos líderes do Khmer Vermelho foi perdoada. Outros obtiveram altos cargos no atual governo do Camboja.
O contrato entre a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Partido do Povo Cambojano, de Hu Sen, determina quem pode ser acusado: "Lideranças de alto escalão e aqueles que têm a maior responsabilidade pelos crimes cometidos". Pol Pot, o "Irmão Número Um", foi o maior responsável por tudo.Em julho passado, Ta Mok, líder militar do Khmer Vermelho, morreu aos 80 anos no hospital militar de Phnom Penh. Nuon Chea, 79, o "Irmão Número Dois", mora no último refúgio dos ex-comunistas.
Tanto o ex-ministro das Relações Exteriores, Ieng Sary, quanto o chefe de Estado, Khieu Samphan, também moram lá em mansões luxuosas.Somente Duch, o temido chefe do centro de torturas S-21, está na cadeia.Claudia Fenz, 48, integra o corpo de 13 juízes e advogados internacionais que se sentarão no tribunal de 30 membros. A advogada vienense não sabe ao certo se o caso diz mais respeito a justiça ou a política. Os juízes cambojanos podem anular as determinações dos seus colegas da ONU em todos os níveis jurídicos. Além disso, há, é claro, o nome estranhamente incomum do tribunal: "Câmaras Extraordinárias nos Tribunais do Camboja para o Julgamento de Crimes Cometidos durante o Período da Campuchea Democrática". Mesmo assim, as expectativas são grandes. Na recepção de abertura para os corpos diplomáticos, o embaixador sul-coreano chamou os juízes estrangeiros e pediu a eles que levassem a sério a responsabilidade histórica: "Isso porque o julgamento é o primeiro ajuste de contas legal com o comunismo".
Gregory Stanton, professor de direito da Universidade Mary Washington, em Virgínia, está cético. Ele estuda há anos o genocídio cometido no Camboja. Stanton visitou o país pela primeira vez em 1980, como membro de uma organização humanitária, logo após a chegada das tropas de Hanói. À época, apenas 30 mil pessoas ainda moravam em Phnom Penh: a capital parecia uma cidade fantasma.
Stanton viu campos de arroz repletos de corpos. Ele ouviu histórias sobre como bebês foram esmagados contra árvores. E também ouviu falar das mães que foram asfixiadas com sacolas plásticas.
Porém, quando Stanton retornou aos Estados Unidos, ninguém estava interessado no Camboja. "Foi simplesmente o Vietnã, que infligiu uma derrota vergonhosa aos Estados Unidos, que libertou o Camboja dosassassino de massas Pol Pot, com a ajuda do seu vassalo, Hun Sen".Em vez disso os norte-americanos apoiaram um triunvirato incomum.
O príncipe Sihanouk, o anti-comunista Son Sann e os sucessores de Pol Pot combateram o governo Hun sem a partir dos seus refúgios na selva. Pequim forneceu minas terrestres e armamentos. E o governo tailandês permitiu o transporte de armas pelo seu território. O chefe do escritório da Agência Central de Inteligência (CIA) em Bancoc se gabou dessa cooperação internacional ainda no início da década de 1990, afirmando: "Eu mantive a coalizão unida".Ao tentar salvar o país do Vietnã, a comunidade internacional prolongou a fome e a guerra no Camboja. "Centenas de milhares de pessoas devem ter morrido depois que o Vietnã invadiu o país", diz Stanton.
No Camboja eles chamam esse período de "Os Campos da Morte Dois".Só em 1997 a secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, aderiu à opinião de que a ONU deveria juntar forças a Hun com o propósito de criar um tribunal de direitos humanos. Stanton, que nesse ínterim trabalhou como diplomata norte-americano, redigiu o memorando que persuadiu Albright."Esse tribunal jamais fará a justiça", afirma Youk Chhang, 46. Ele uma espécie de Simon Wiesenthal cambojano. Se ele e o seu centro de documentação não tivessem procurado os documentos sobre os assassinatos em massa, e se eles não tivessem preservado as testemunhas oculares dos horrores, o tribunal não teria sido criado.
Os asseclas de Pol Pot assassinaram vários parentes de Chhang. Eles abriram a barriga da sua irmã com uma faca - em frente aos filhos dela - depois que a mulher foi acusada, no campo de trabalhos forçados, de roubar arroz. Quando uma das filhas não parou de chorar, um dos executores deu a ela a tigela de arroz da mãe e lhe disse: "Se você guardar isso, a sua mãe um dia retornará do céu".A criança hoje é uma adulta e tem os seus próprios filhos nos Estados Unidos. Quando os filhos lhe perguntam qual é o significado da tigela, que ela guardou, a mulher geralmente diz: "Perguntem ao seu tio no Camboja".Até hoje, Youk Chhang não conseguiu lhes contar a história. Mas ele não a ocultará dos juízes. Da Der Spiegel