Wednesday, January 10, 2007

América Latina: Um continente estimulado pelo crime

Assassinatos com armas de fogo na América Latina são o triplo da média mundial

Assassinatos com armas de fogo na América Latina são o triplo da média mundialFernando GualdoniEm MadriTodo latino-americano sabe quase desde seu nascimento que existe alguma área em sua cidade onde nem a polícia se atreve a entrar.
A mítica Cidade Oculta de Buenos Aires, o bairro do Petare que se ergue no final da avenida Francisco de Miranda em Caracas ou a gigantesca favela da Rocinha no Rio de Janeiro são lugares que as pessoas evitam desde crianças.Depois há cidades inteiras com fama de violentas demais: São Paulo, Ciudad Juárez, Medellín, Lago Agrio, Ciudad del Este... O pior é que a lista dos centros do crime não pára de crescer, alimentada pela pobreza e a marginalização social.
Na América Latina, cerca de 30 em cada 100 mil pessoas são assassinadas anualmente com armas de fogo, segundo diversos estudos, entre eles um da ONU. A cifra é o triplo da média mundial. O número de seqüestros também é recorde: aproximadamente 60% dos registrados todo ano no mundo ocorrem entre o rio Grande e a Terra do Fogo.
Um relatório do Banco Mundial calcula que as atividades criminosas custam à região mais de 23 bilhões de euros (número quase equivalente ao PIB equatoriano) por ano, somente em gastos para a reconstrução de infra-estruturas e o reforço dos serviços de segurança.Não há país que se salve nas pesquisas. Em todos, inclusive o Chile, a segurança civil está entre as principais preocupações da população.
Acima de tudo, duas questões: o crescimento do crime organizado e o velho mas constante problema da corrupção nas forças de segurança.Os cinco dias de rebeliões carcerárias e ataques a delegacias e edifícios públicos no estado de São Paulo em maio de 2006 foram um claro exemplo do poder dos bandos criminosos. Morreram 272 pessoas, entre elas 91 policiais, segundo a imprensa brasileira.
Às vésperas do último Ano Novo, o Rio de Janeiro viveu uma onda de violência do crime organizado que terminou com 25 mortos. O governo federal acaba de enviar uma força especial ao Rio para combater os bandos.O grupo que encabeçou a sangrenta revolta em São Paulo, o Primeiro Comando da Capital (PCC), representa praticamente um poder paralelo ao estatal. Seu líder, Marcos Williams Herba Camacho, conhecido por Marcola, é mais perigoso com um telefone celular do que com uma arma. E apesar de ter passado mais da metade de sua vida na prisão - como muitos chefes do PCC -, Marcola, que tem 38 anos, foi capaz de manter a liderança do bando e seu principal negócio, o tráfico de drogas.
A organização dirigida por Marcola, seguidor confesso da teoria da arte da guerra de Sun Tzu, chegou a ganhar 230 mil euros por semana, segundo fontes policiais citadas pela imprensa. O PCC é um grande sindicato do crime, com um "exército" de 150 mil homens, o triplo de "soldados" com que contam a Camorra napolitana e a Máfia siciliana juntas. No México, os cartéis do Golfo, Juárez e Sinaloa também são poderes paralelos ao Estado nas áreas em que atuam.Nem falar das "maras", os bandos de jovens que aterrorizam a América Central. O nome, que procede de "marabunta", a formiga que arrasa tudo à sua passagem, lhe serve muito bem. Hoje as ações criminosas do "mareros" se estenderam de El Salvador, Nicarágua e Honduras até Belize, Costa Rica e Panamá. Os mareros se transformaram em mão-de-obra barata para os cartéis mexicanos. Calcula-se que cerca de 20 mil desses criminosos atravessem todo ano do México para os EUA para fazer algum "trabalho", e muitos são deportados sem que se comprovem seus antecedentes.
A Colômbia, junto com México e Brasil, é outro país que conta com conhecidos grupos criminosos. Ali se misturam diariamente o crime e uma guerra que já dura mais de 40 anos, onde os guerrilheiros se confundem com os criminosos do narcotráfico e vice-versa. O índice de assassinatos e seqüestros aparece entre os mais altos do mundo há tempo.Mas esta semana a polícia colombiana informou que os assassinatos durante 2006 caíram a seu nível mais baixo em 20 anos.
O general Jorge Daniel Castro, chefe da polícia, disse que em 2006 foram assassinadas 17.206 pessoas, 517 a menos que no ano anterior. Os especialistas já reconhecem que a segurança melhorou nos últimos anos na Colômbia, mas lembram que os números continuam alarmantes.O aumento da criminalidade está relacionado à corrupção das forças de segurança. Um estudo da ONG chilena Latinobarómetro mostrou que só um em cada três cidadãos de todos os países da região confia na polícia.
Dois casos demonstram que há razões de sobra para desconfiar: no seqüestro e assassinato do jovem Axel Blumberg na Argentina em 2004, que gerou grandes protestos contra a corrupção policial e judiciária, as investigações revelaram que a rede de envolvidos chegava até o chefe da divisão anti-seqüestros.É ilustrativo ver o filme "El Bonaerense", do diretor Pablo Trapero, para ter uma idéia de como é formada a polícia da principal província argentina.
No México, o responsável máximo pelo combate às drogas, general Jesús Gutiérrez Rebollo, foi detido em 1997 quando se comprovou que trabalhava para o cartel de Juárez. O caso é recriado no filme "Traffic", dirigido por Steven Soderbergh. Do "El País"

Sunday, January 07, 2007


AI AI AI
Fidel Castro não tem câncer. Isto mesmo. Diagnóstico errado, mas a equipe de especialistas que fez diagnóstico de tumor maligno caiu em desgraça
Leiam isso:
A recuperação de Fidel Castro, anunciada no final de 2006, criou uma dor de cabeça em Havana, pois implica no reconhecimento de que ele foi vítima de um erro médico.Fidel passou seis meses sendo tratado como doente terminal, que estaria às voltas com um câncer no intestino. A notícia deu um ritmo acelerado à sucessão cubana, uma das mais duradouras ditaduras criadas no século XX, e gerou articulações, dentro e fora do país, em função de possíveis mudanças no comando do regime.
Depois que o médico espanhol José Luis Garcia Sabrido revelou que seus exames não encontraram sinais de malignidade, a equipe de especialistas cubanos caiu em desgraça, informam pessoas familiarizadas com o comando do regime.O azar de Fidel é que, até por uma questão de lógica, um erro de diagnóstico sempre leva a um erro no tratamento. Ele passou meses sendo medicado de forma inadequada, além de enfrentar cirurgias arriscadas para um paciente com 80 anos. Celebrada pela qualidade de sua medicina pública, o tratamento de Fidel já é apontado como exemplo do atraso de Cuba na medicina de ponta.
Boa parte dos medicamentos prescritos por Sabrido terão de ser importados, pois não estão disponíveis no país.A dúvida, no momento, consiste em saber se a recuperação de Fidel será duradoura - ou se, mesmo sem um tumor maligno, poderá enfrentar uma recaída em breve. A verdade é que as certezas são poucas. Sabrido admitiu que não encontrou um tumor maligno - mas evitou detalhes sobre a doença.
Erros médicos sempre produzem seqüelas políticas quando envolvem chefes de Estado. O diagnóstico que hoje se define como errado apressou o afastamento de Fidel e a nomeação do sucessor, o irmão Raúl Castro. Fonte: http://www.estado.com.br/editorias/2007/01/07/int-1.93.9.20070107.6.1.xml


MEIO AMBIENTE/SAÚDE
Polêmica sobre os riscos do amianto tem novo capítulo na Justiça
O debate sobre a proibição da exploração, industrialização e comércio do amianto tem uma nova etapa com conclusão prevista para 10 de fevereiro. Até lá, o ministro Agenor Álvares precisa justificar ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) as razões que o levaram a assinar a portaria que aprova procedimentos e critérios de envio ao Sistema Único de Saúde (SUS) de listas de trabalhadores e ex-trabalhadores expostos ao mineral.
A legalidade da portaria do Ministério da Saúde é questionada por mandado de segurança de 19 empresas do setor, encabeçadas pela Eternit S/A, que conseguiram liminar do STJ em 12 de dezembro. A Portaria 1.851/2006 abrange as atividades de extração, industrialização, utilização, manipulação, comercialização, transporte e destinação final de resíduos. Inclui nestas lista os produtos e equipamentos que contenham amianto.
A liminar de dezembro foi concedida pelo ministro relator João Otávio de Noronha. Essa briga judicial não é de agora. Municípios e estados aprovaram legislações específicas proibindo desde a utilização em órgãos da administração direta e indireta de produtos que contenham amianto até a comercialização, o beneficiamento, a fabricação e a instalação de produtos ou materiais que contenham o mineral sob qualquer forma.
Em alguns casos, o setor de fibrocimento (material constituído por amianto e cimento) conseguiu reverter as legislações municipais e estaduais por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O principal argumento é que existe uma lei federal (Lei 9.055, de 1995) que disciplina a extração, a industrialização, a utilização, a comercialização e o transporte do amianto e dos produtos que o contenham.As empresas reverteram as decisões dos governos estaduais do Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em 2001, o governo do Mato Grosso do Sul proibiu a comercialização de produtos à base de amianto em seu território.
O decreto foi considerado inconstitucional pelo STF em 8 de maio de 2003.No caso do estado de São Paulo, o decreto assinado pelo então governador Geraldo Alckmin, em 25 de janeiro de 2001, proibia a importação, extração, beneficiamento, comercialização, fabricação e instalação de produtos ou materiais contendo qualquer tipo de amianto. A lei estadual foi revogada pela Corte Suprema em 8 de maio de 2003.
ão houve recurso do governo estadual.Apesar dessas decisões, em alguns municípios existem legislações específicas de restrição ao uso do amianto. Levantamento feito em 2004 pelo consultor do Ministério da Saúde Elio Lopes dos Santos cita como exemplos os municípios paulistas de Mogi Mirim, São Caetano do Sul, Osasco, Bauru, Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo, Taboão da Serra, Barretos, Jundiaí, Amparo e Santa Bárbara D’Oeste.O levantamento feito pelo consultor cita, ainda, o município de Recife (PE) entre os que restringiram o comércio e uso de materiais produzidos com amianto. Os estados do Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul também têm legislações específicas sobre a questão.Da Radiobras

Friday, January 05, 2007


TERRA
Estudo vê em MST 'pilar' da reforma agrária
Relatório do Centro de Pobreza afirma que movimentos sociais são importantes para estimular políticas de redistribuição de terras
A atuação de organizações sociais como o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) é um dos quatro pilares que sustentam um modelo alternativo de reforma agrária proposto pelo Centro Internacional de Pobreza — um braço do PNUD com sede em Brasília. Em estudo que analisa a experiência de 20 países no setor, o órgão avalia que a “intensa pressão” exercida pela mobilização de camponeses e trabalhadores rurais contribuiu com parte significativas das políticas bem-sucedidas de redistribuição de terra.
Entre os países que tiveram o processo de reforma agrária desencadeado pela mobilização de organizações formadas por camponeses e trabalhadores rurais, o estudo cita o México (nos anos 30), a Índia (nos anos 60 e 70) e o Chile (no inicio da década de 1970). “Mais recentemente, organizações influenciadas pela pobreza rural têm emergido nas Filipinas e no Brasil com campanhas agressivas pela reforma agrária”, afirma o texto, intitulado O Debate Inconcluso sobre Reforma Agrária: Além do Modelo Estatal e do Modelo de Mercado. Nenhum movimento (nem o MST) é nominalmente citado no artigo.
O estudo apresenta uma alternativa aos modelos clássicos de reforma agrária. Os autores do trabalho — o diretor do Centro Internacional de Pobreza, Terry McKinley, e o pesquisador canadense Saturnino Borras, da Universidade de Mary — partem do princípio de que tanto a intervenção Estatal como as regras de mercado não asseguram o sucesso das políticas de redistribuição de terras. O modelo estatal (que costuma envolver confisco de latifúndios, taxação progressiva da terra ou pagamento de subsídios a agricultores que fizerem transferência de terra) interfere nas relações de mercado, segundo os dois estudiosos. O modelo de mercado (em que assentados compram propriedades de grandes fazendeiros pelo valor de mercado) “subestima” o poder político e econômico dos grandes agricultores e “superestima” o poder dos sem-terra.
O estudo propõe então um modelo de “redistribuição alternativa” calcado em quatro pilares. Além dos movimentos campesinos, o processo de reforma agrária deve contar com uma ampla coalizão política pró-reforma, que defenda os interesses dos sem-terra no parlamento; com um investimento público substancial, que permita que os assentados iniciem a produção; e com uma estratégia de desenvolvimento que integre as ações e promova o crescimento pró-pobre para assegurar a sustentabilidade da nova estrutura agrária.
O trabalho ressalva que, embora devam ser autônomos e politicamente independentes, esses movimentos dificilmente atingirão seus objetivos sem fazer alianças políticas. “As forças anti-reforma freqüentemente comandam os fortes e consolidados grupos políticos, tanto em nível local como nacional”, aponta. Nesse contexto, o documento destaca a importância do estabelecimento de uma coalizão política favorável à reforma agrária — o segundo pilar da proposta de redistribuição alternativa.
Apesar de apresentar uma terceira via aos modelos clássicos de reforma agrária, o estudo reconhece a existência de experiências bem-sucedidas no caso de intervenções do Estado na estrutura de distribuição. “O modelo estatal de reforma agrária — embora tenha sido muito criticado nos anos recentes — registrou alguns sucessos notáveis”, aponta. “Os casos de sucesso — Japão, Coréia do Sul e Taiwan — são bem conhecidos. Os esforços de larga escala de outros países, como Bolívia, Chile, Cuba e México, são amplamente reconhecidos”, completa.
GENOCÍDIO
Camboja se prepara para o julgamento do Khmer Vermelho

Jürgen KremPol Pot e os seus asseclas cometeram assassinato em massa contra o seu próprio povo. Agora, um tribunal internacional deverá julgar o regime - naquilo que certas pessoas dizem ser o primeiro ajuste de contas legal com o comunismo. Será que a justiça poderá ser feita, 30 anos depois?
As memórias assombram Nhem Sal, 50, mesmo durante o sono. Ele sente dores nos tornozelos e pulsos, como se o seu carcereiro adolescente do Khmer Vermelho ainda o estivesse acorrentando à cama de metal no terceiro andar do Bloco A, na infame prisão Tuol Sleng, onde eram praticadas torturas.O campo era denominado "S-21" - e ele era o centro do terror no regime de Pol Pot. Mais de 30 anos se passaram desde então.Nhem Sal alimenta a família com o arroz que ele próprio cultiva. Ele tem cerca de 1,70 metro de altura, traz uma mecha rala de cabelo sobre a testa, e as suas mãos são cobertas de calos.
A sua palhoça fica na província de Takeo, cerca de 60 quilômetros ao sul da capital cambojana, Phnom Penh. Durante um quarto de século, promotores analisaram os documentos utilizados nas acusações, e agora eles querem tomar os depoimentos das primeiras testemunhas.Os crimes cometidos foram monstruosos. Quase a metade da população cambojana de sete milhões de habitantes morreu durante a bárbara tentativa de Pol Pot de transformar o seu país na suprema sociedade comunista, afirma o primeiro-ministro Hun Sen.Especialistas estrangeiros acreditam que um número mais provável de pessoas mortas seja 1,7 milhão. Os indivíduos que visitaram Nhem Sal dizem que apenas sete entre os cerca de 20 mil prisioneiros da S-21 sobreviveram ao campo de torturas. Cinco ainda estão vivos, e Nehm Sal é um deles.Fervor nacionalistaNa primavera de 1970, todos os agricultores da vila de Nhem Sal se aproximaram do único rádio disponível e ouviram a voz do príncipe Sihanouk falando a eles da distante Pequim. Sihanouk disse que "o vassalo dos Estados Unidosk, o general Lon Nol", tramara um golpe contra ele, e suplicou aos jovens que libertassem a pátria.
O Camboja se emaranhou na Guerra do Vietnã. Bombardeiros B-52 norte-americanos despejaram 500 mil toneladas de explosivos no país no final da década de 1960, a fim de destruir as linhas de comunicação com os comunistas vietnamitas que passavam por território cambojano. O número de bombas foi maior do que o lançado contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial.
Após ouvirem o príncipe falar no rádio, Nhem Sal e os seus amigos seguiram para a selva e se juntaram ao Khmer Vermelho. Cinco anos mais tarde, eles haviam vencido, tendo conquistado a capital e deslocado a população para o interior, onde ela deveria vivenciar o "verdadeiro comunismo". Aquele foi o início de uma campanha brutal de genocídio contra o próprio povo cambojano.
Cinco meses depois, soldados crianças - que não diferiam de Nhem Sal e dos seus colegas - chegaram ao campo deles e os acusaram de serem "espiões a serviço dos imperialistas norte-americanos". Após um breve interrogatório, eles fuzilaram o supervisor de Nhem Sal. O corpo do supervisor foi usado como "fertilizante para os campos de arroz", conforme explicaram cinicamente os executores.Nhem Sal foi jogado na carroceria de um caminhão e levado para a prisão Tuol Sleng. Durante o dia ele era torturado. Ele passava as noites acorrentado à sua cama. Ao contrário da maioria dos outros prisioneiros do campo, ele foi libertado subitamente após um ano de prisão, para combater novamente junto às fileiras do Khmer Vermelho em escaramuças de fronteira com o Vietnã.
A matança finalmente terminou em dezembro de 1978. Soldados vietnamitas - liderados pelo cambojano Hun Sen, um renegado do Khmer Vermelho - libertaram o país da orgia de sangue instituída por Pol Pot.Agora, 28 anos depois, Nhem Sal retorna pela primeira vez a Tuol Sleng, no momento em que se prepara para ser testemunha perante o tribunal.Letras brancas anunciam à entrada do pavilhão: "Museu do Genocídio".
No assoalho há longas fileiras de murais com fotos. Todos os prisioneiros foram fotografados pelos guardas de Pol Pot quando chegaram a esse gulag tropical, e os seus dados pessoais foram anotados.Nhem Sal passou algum tempo examinando as paredes repletas de fotos, procurando em vão pela sua própria imagem. De repente as suas memórias ficaram insuportáveis e ele correu para fora.
Por que o Khmer Vermelho agiu com tamanha barbaridade? Quem deu a ordem para que se cometessem assassinatos em massa contra o povo? O pesquisador francês tentou responder a essas perguntas. "Indiretamente, a catástrofe teve início conosco, os franceses", afirma o diretor do Centro de Estudos do Khmer Vermelho em Seim Reap, que fica ao lado do famoso templo Angkor Wat, que também abrigou o Khmer Vermelho."Sem Pol Pot, nós nos teríamos transformado em uma província norte-americana"Quando o exército colonial francês cruzou a fronteira e ingressou na Indochina em meados do século 19, o Camboja era dominado pela Tailândia e pelo Vietnã.
Em 1863, os governantes coloniais transformaram a região em um protetorado. Os franceses permitiram pela primeira vez a independência do Camboja em 1953, sob o governo do rei Sihanouk. Mas ao final da década de 1960 o país se envolveu com a Guerra do Vietnã. Sob a liderança de Pol Pot, houve a emergência de guerrilheiros de esquerda - o Khmer Vermelho - que lutou contra o governo e finalmente chegou ao poder em 1975.De acordo com Peycam, os comunistas combinaram a sua ideologia com uma xenofobia extremada. Quando mais gente eles matavam, mais sentiam que se livrariam de toda influência estrangeira. Um nacionalismo assassino tomou conta do país.
Nhem En, 46, membro da equipe da S-21, mora próximo a Siem Reap, na região fronteiriça de Anlong Veng. Ele tirou a maioria das fotos que atualmente são exibidas no Museu do Genocídio. Ele também entrou para o Khmer Vermelho quando criança. Foi uma decisão da qual ele nunca se arrependeu. "Os B-52 destroçaram o nosso país", conta Nhem En.Ele foi treinado como fotógrafo em 1976 na China, e depois enviado para trabalhar na prisão Tuol Seng. "Eu ouvia as pessoas gritando, mas fiz o que tinha que fazer". Em outras palavras: para sobreviver, preocupe-se primeiramente consigo próprio. "Todos os dias eles traziam novos prisioneiros", conta ele. "Tínhamos que tomar medidas drásticas".
Quando Pol Pot fugiu em 1979, perseguido pelas tropas vietnamitas, Nhem En o acompanhou e se tornou o seu fotógrafo particular. "Ele não era um homem ruim", diz Nhem En referindo-se ao ditador. "Ele sempre tomou conta dos seus camaradas. Sem ele, teríamos nos transformado em uma província norte-americana".Quando é confrontado com perguntas sobre as várias sepulturas coletivas e os milhões de mortos, ele oferece uma versão alternativa para o que se passou. Nhem En alega que dois terços das vítimas morreram de desnutrição ou doenças: "Uma conseqüência da guerra que foi imposta sobre nós".
Nhem En quer criar um museu de Pol Pot. Ele vasculha uma caixa de metal cheia de fotos antigas e encontra o que procura: O "Irmão Número Um" em marcha pela selva; Pol Pot rodeado pelos seus comandantes, como se fosse um avô bonzinho. Às vezes Nhem leva um visitante até a sepultura do assassino de massas, localizada a cinco minutos de carro da sua casa. Ele cobra US$ 100 por esse serviço. E ele também vende fotos do corpo de Pol Pot, que morreu em 1998, perto de Anlong Veng.Quando lhe perguntam como se sente a respeito do tribunal, ele responde: "Se o governo desejar me colocar perante o tribunal, irei com satisfação. Não tenho medo". Mas ele não acredita que a coisa chegue a esse ponto. Atualmente ele trabalha para o governo de Hu Sen como vice-chefe regional. E, em Phnom Penh, a calma é mais importante do que o ajuste de contas com o passado.
O primeiro ajuste de contas legal com o comunismo?
O tribunal dará início ao seu trabalho neste início de ano. O julgamento provavelmente demorará anos, e ele deverá se limitar a abordar as violações dos direitos humanos cometidas durante o período da ditadura de Pol Pot, entre 17 de abril de 1975 e 6 de janeiro de 1979.A maior parte dos líderes do Khmer Vermelho foi perdoada. Outros obtiveram altos cargos no atual governo do Camboja.
O contrato entre a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Partido do Povo Cambojano, de Hu Sen, determina quem pode ser acusado: "Lideranças de alto escalão e aqueles que têm a maior responsabilidade pelos crimes cometidos". Pol Pot, o "Irmão Número Um", foi o maior responsável por tudo.Em julho passado, Ta Mok, líder militar do Khmer Vermelho, morreu aos 80 anos no hospital militar de Phnom Penh. Nuon Chea, 79, o "Irmão Número Dois", mora no último refúgio dos ex-comunistas.
Tanto o ex-ministro das Relações Exteriores, Ieng Sary, quanto o chefe de Estado, Khieu Samphan, também moram lá em mansões luxuosas.Somente Duch, o temido chefe do centro de torturas S-21, está na cadeia.Claudia Fenz, 48, integra o corpo de 13 juízes e advogados internacionais que se sentarão no tribunal de 30 membros. A advogada vienense não sabe ao certo se o caso diz mais respeito a justiça ou a política. Os juízes cambojanos podem anular as determinações dos seus colegas da ONU em todos os níveis jurídicos. Além disso, há, é claro, o nome estranhamente incomum do tribunal: "Câmaras Extraordinárias nos Tribunais do Camboja para o Julgamento de Crimes Cometidos durante o Período da Campuchea Democrática". Mesmo assim, as expectativas são grandes. Na recepção de abertura para os corpos diplomáticos, o embaixador sul-coreano chamou os juízes estrangeiros e pediu a eles que levassem a sério a responsabilidade histórica: "Isso porque o julgamento é o primeiro ajuste de contas legal com o comunismo".
Gregory Stanton, professor de direito da Universidade Mary Washington, em Virgínia, está cético. Ele estuda há anos o genocídio cometido no Camboja. Stanton visitou o país pela primeira vez em 1980, como membro de uma organização humanitária, logo após a chegada das tropas de Hanói. À época, apenas 30 mil pessoas ainda moravam em Phnom Penh: a capital parecia uma cidade fantasma.
Stanton viu campos de arroz repletos de corpos. Ele ouviu histórias sobre como bebês foram esmagados contra árvores. E também ouviu falar das mães que foram asfixiadas com sacolas plásticas.
Porém, quando Stanton retornou aos Estados Unidos, ninguém estava interessado no Camboja. "Foi simplesmente o Vietnã, que infligiu uma derrota vergonhosa aos Estados Unidos, que libertou o Camboja dosassassino de massas Pol Pot, com a ajuda do seu vassalo, Hun Sen".Em vez disso os norte-americanos apoiaram um triunvirato incomum.
O príncipe Sihanouk, o anti-comunista Son Sann e os sucessores de Pol Pot combateram o governo Hun sem a partir dos seus refúgios na selva. Pequim forneceu minas terrestres e armamentos. E o governo tailandês permitiu o transporte de armas pelo seu território. O chefe do escritório da Agência Central de Inteligência (CIA) em Bancoc se gabou dessa cooperação internacional ainda no início da década de 1990, afirmando: "Eu mantive a coalizão unida".Ao tentar salvar o país do Vietnã, a comunidade internacional prolongou a fome e a guerra no Camboja. "Centenas de milhares de pessoas devem ter morrido depois que o Vietnã invadiu o país", diz Stanton.
No Camboja eles chamam esse período de "Os Campos da Morte Dois".Só em 1997 a secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright, aderiu à opinião de que a ONU deveria juntar forças a Hun com o propósito de criar um tribunal de direitos humanos. Stanton, que nesse ínterim trabalhou como diplomata norte-americano, redigiu o memorando que persuadiu Albright."Esse tribunal jamais fará a justiça", afirma Youk Chhang, 46. Ele uma espécie de Simon Wiesenthal cambojano. Se ele e o seu centro de documentação não tivessem procurado os documentos sobre os assassinatos em massa, e se eles não tivessem preservado as testemunhas oculares dos horrores, o tribunal não teria sido criado.
Os asseclas de Pol Pot assassinaram vários parentes de Chhang. Eles abriram a barriga da sua irmã com uma faca - em frente aos filhos dela - depois que a mulher foi acusada, no campo de trabalhos forçados, de roubar arroz. Quando uma das filhas não parou de chorar, um dos executores deu a ela a tigela de arroz da mãe e lhe disse: "Se você guardar isso, a sua mãe um dia retornará do céu".A criança hoje é uma adulta e tem os seus próprios filhos nos Estados Unidos. Quando os filhos lhe perguntam qual é o significado da tigela, que ela guardou, a mulher geralmente diz: "Perguntem ao seu tio no Camboja".Até hoje, Youk Chhang não conseguiu lhes contar a história. Mas ele não a ocultará dos juízes. Da Der Spiegel